segunda-feira, 13 de agosto de 2012

F*da-se ligado no modo turbo

Estar em um país diferente é ótimo. A vivência, a troca de experiências, o conhecer o novo é sempre incrível. Mas há sempre o momento "p*ta que pariu, que que eu tô fazendo aqui?". O meu chegou nesses últimos dias.

Pra não me alongar muito, dois episódios da última semana.

Episódio 1 - Boca suja

Sábado de manhã, decidi sair pra dar uma caminhada na Feira do Pau Preto (sim, pau preto!) pra ver alguns artesanatos e comprar uma pintura pra disfarçar um pouco o laranja-gari da parede do apartamento onde moro. Mal chego, já junta um monte de gente querendo que eu compre qualquer coisa por um preço exorbitante. Mantenho a classe. "Não, obrigada", "não quero, obrigada". Até que um guri chega com uma espécie de xilofone rústico, cujo nome local a raiva do momento me fez esquecer completamente. Agradeço, digo que não estou interessada, e continuo a caminhada. O bendito vai atrás.

- Leva só pra me ajudar, mama.
- Não, não quero.
- Pode pagar o que quiser.
- Não quero.
- Compra, você tem dinheiro.

Minha santa! Entro em uma padaria no caminho. Tomo um café, como um pão com manteiga, vejo umas notícias na TV. E o cara me esperando lá fora, erguendo o xilofone a cada vez que passo os olhos pela janela. Não tem jeito, preciso ir pra casa. Mal coloco o pé na calçada, ele volta a me encher. Dois quarteirões depois, perco a paciência.

- Leva, você tem dinheiro, precisa me ajudaaaaaar!
- Meu querido, pega este instrumento e enfia no meio do seu c*. Eu já disse que não vou comprar p*rra nenhuma. Não tenho interesse. Não gosto. Não levo nem de graça.

Saiu de perto com os olhos arregalados. Resolveu.

Episódio 2 - O troco

Sexta-feira, final da tarde, galera toda querendo ir pra casa encher a cara. Busão lotado, chegando na paragem onde desço. Pego o dinheiro, dou ao cobrador e aviso que vou descer no próximo. Ele tenta dar uma de engraçadinho.

- Não quer sentar?
- Não, obrigada. Já disse que desço na próxima paragem.
- Não quer sentar aqui? - fala sorrindo e batendo a mão na perna.

Suspiro, olho pra ele com cara de pena.
- Meu querido, olha bem pra mim. Você aí, mal consegue se manter em pé, e ainda acha que alguém do meu naipe vai sentar no seu colo? Acha mesmo que consegue?

O chapa inteiro cai na gargalhada e grita, me apoiando. Ele insiste, levantando as sobrancelhas.
- Mas aqui é o melhor banco do chapa.
- Agora fala sério. Alguma vez essa conversinha furada colou com alguém? Alguma moça alguma vez aceitou isso? Funciona de verdade? Tá faltando tanto carinho assim em casa, meu querido?

Pronto, viro a rainha do chapa. Ganhei o dia. Até o motorista buzinou e me fez um joinha depois que desci.

O pior é que estou gostando desta minha nova versão.

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

As aves que aqui gorjeiam

Segunda-feira é sempre um dia estranho aqui em Moçamba. Hoje, em especial, começou mais estranho que os demais.

Todas as manhãs, acordo com o som dos vendedores que ficam debaixo da minha janela e de umas aves estranhas. Ainda não consegui identificar que aves são aquelas. São pretas, fazem som de corvo, mas não tenho certeza se realmente são corvos. O fato é que não são sabiás, e o canto me parece um tanto quanto selvagem.

Hoje, entretanto, acordei as 5h da manhã, com uma pessoa ofegante debaixo da minha janela, e uns "flap-flop-flap-flop". Demorei a acreditar que poderia ser isso mesmo que você está pensando. O som era o mesmo, e não terminava nunca. Virei pro outro lado, o som persistia. Incomodada, olhei pela janela. Era um velhinho tentando fazer seu cooper às 5h da manhã, e de chinelos! Por Deus! E o pior é que ele ia da entrada do meu prédio até a esquina e voltava, em uma distância de não mais de 30 metros.

Depois de amaldiçoar mentalmente os últimos dias de vida do velhote e seus chinelos, eis que ele cansou e consegui dormir de novo. Pontualmente, às 6h30, chegaram os vendedores e seus megafones imbutidos nas gargantas. Como falam alto!

Reclamações à parte, para além da barulheira dos ambulantes, hoje não foram os corvos, ou seus primos, que cantaram pela manhã. Eram passarinhos mesmo, desses de canto fininho. Quando levantei, percebi que estava nublado. Vai ver, quando o tempo está pra chuva, os corvos dão lugar aos passarinhos.

Outro ponto peculiar aqui em Maputo é o cheiro das ruas na segunda de manhã. A galera bebe todas no final de semana, e o cheiro de xixi é tão forte que é quase possível ver o vaporzinho subindo. Nem banheiro de rodoviária consegue superar o ambiente de segunda cedo.

Depois de compartilhar com o mundo meu mau humor matinal, fui supreendida por um senhor e sua garrafa de pinga. Na esquina de casa, aquele olhar opaco, que parece olhar através das pessoas, que só os bebuns têm. Um sorriso frouxo e sem dentes. Olhou na minha direção, ergueu a garrafa e disse "Moçambique é bom, né?"

Ainda não tenho minha ideia formada, mas, apesar dos pesares, consegui rir um pouco logo pela manhã.

terça-feira, 31 de julho de 2012

Vou de taxi, cê sabe!

Começar um post, a essas alturas, falando que o alguma coisa aqui é uma loucura seria repetir o óbvio. Mas é difícil achar um adjetivo que descreva melhor o trânsito e os meios de transporte em Maputo.

A primeira coisa que um gringo branquelo não vindo das proximidades do Reino Unido ou da Ásia precisa superar é a tal da mão inglesa. Das duas uma: ou você vai acabar abrindo a porta do motorista quando pegar uma carona e vai se deparar com o volante (enquanto o motorista ri da sua cara, claro), ou vai viver perigosamente a cada esquina. Eu, que não sou qualquer turista, já fiz dos dois. E, como gosto de bater perna, só agora começo a me acostumar a olhar pro lado certo quando atravesso a rua.

Outra aventura, e das grandes, como comecei a relatar no post anterior, é andar nos chapas. Agora que moro em outro lugar, tenho a sorte de pegar os micro onibus no contrafluxo e raramente vou pro trabalho cheirando o cangote dos colegas. Não tenho a mesma sorte com as músicas.

Motorista do chopela tentando desviar do trânsito.
Motorista de chapa precisa ser, obrigatoriamente, DJ nas horas vagas. E precisa praticar nas horas de trabalho mesmo, o que dificulta um bocadinho a comunicação. Hoje, enquanto ia para o trabalho, tocou de tudo no rádio do busão: Michel Teló, Wando, Fagner, Roberto Carlos, e, de saideira, The power of love, aquela que a Rosana traduziu como O amor e o poder. E o volume estava tão alto que se eu começasse a cantar junto, ninguém ia perceber. Aliás, essa seria uma boa, hein? A branquela doida cantando Como uma deusa / você me mantém!

O desafio maior, porém, é você avisar o motora que vai descer no próximo ponto. É claro que não tem cordinha pra puxar. Tem que encher o pulmão e gritar "Paragem!". Isso umas três vezes, até alguém escutar. O cobrador é quem geralmente avisa o motorista, mas isso quando não está pendurado pra fora do busão, chamando a galera pra entrar.

Funciona mais ou menos assim: o chapa vai chegando no ponto, ou paragem, o cobrador já abre a porta e poe metade do corpo pra fora. Se ninguém vai descer, ele fica lá, gritando o destino final pra ver se alguém se interessa em subir. Se alguém desce, ele vai acompanhando, caminhando, do lado de fora, mão agarrando o puta-merda da porta, e gritando pra chamar a galera. Aí o motorista dá uma acelerada mais forte e ele pula pra dentro. Enquanto isso, a galera tem que descer com o veículo em movimento. Adrenalina pura!

A comunicação cobrador/motorista também é interessante. Usa-se o moderno método de bater na lataria. Se tem um tiozinho correndo pra pegar o chapa e o motora não viu, o cobrador tasca soco na lataria. O motorista acelera menos e a pessoa sobe. Se alguém grita "Paragem!" e o motorista não escuta, o cobrador assovia e tudo se resolve.

E, a mais clássica de todas: se o busão tá cheio (lê-se cheio pra caraca, com gente com a busanfa pra fora da janela e cabeça ralando no teto), o motorista, além de não parar, vai te fazer um sinal. Vai bater com a palma de uma mão aberta sobre a outra, fechada, estilo "sentou no sorvete". Pra eles, é um gesto de "tá cheio, ê pá". No Brasil, a gente entenderia "se ferrou!". Então, se for pegar chapa aqui e levar este gesto, ele não está rindo da sua cara e te mandando ir a pé. E, acredite, você estaria muito mais ferrado se ele tivesse parado pra você entrar.

Por fim, compartilho outra experiência que tive na semana passada. Sexta-feira, abertura das Olimpíadas, fui comprar uma TV. Não ia trazer de chapa e não passava um taxi na rua. Peguei um chopela, aquela cruza de moto com fusca, da foto ali do lado. Ainda não consegui fotografar um daqui, mas o modelo indiano que peguei na internet ilustra bem. Por incrível que pareça, não começaram a usar chopela como transporte de mais de dois passageiros por aqui. Melhor não divulgar muito essa foto indiana.

Pois bem, o tal do chopela (que, na língua local, significa carona) custa metade da corrida de taxi, com o dobro de aventura. Não tem cinto de segurança nem capacete. O vento bate na cara o trajeto todo. E os pilotos deixam motoboy paulista comendo poeira. Detalhe é que fazem isso com você dentro.

Tentei filmar o trajeto de dentro do chopela, mas o negócio treme tanto que tive que escolher entre filmar e segurar a mim, o celular e a caixa da TV dentro dele. Mas vale a canora.


segunda-feira, 30 de julho de 2012

No português de Moçambique


Aqui em Moçambique, fala-se português na maioria das vezes, mas isso não é garantia de comunicação fluida. O português é bem lusitano, com palavras conhecidas nas nossas piadas, como bicha e rapariga, mas com uma pitadinha da pimenta africana.

Há uma porção de dialetos, quase 30 só em Moçambique. Quando a galera vê que tem um branco por perto e não quer que ele participe da conversa, tasca dialeto. Mas tem muita palavra que não existe e eles recorrem ao português. Dia desses estava no chapa e o motora falando com o cobrador “birulirularoler miripirotimoleno ENGARRAFAMENTO!”. Pelo menos entendi que não era de mim que estavam falando.

Também tem a famosa expressão “então tá NICE!”, que já recorre ao inglês e fica mais chique. Mas engraçado mesmo é quando eles falam “estamos juntos”. Pra eles, “estamos juntos” é como um “então beleza”. “Mano, vou ali almoçar e depois vou dar uma cochilada.” “Estamos juntos.”

Além disso, mulher deconhecida é "mama", ou "mami", pros mais meigos. Nada da tia da escola. É a mama mesmo. Acompanhando o raciocínio, nosso “tiozão” ou “tiozinho” é o “papa” deles, ou o “papi”. E quando a pessoa é brother, chama de mano. Tudo em família.

Eu, como boa brasileira que sou, já dei minhas mancadas por aqui. Dia desses fui a uma pastelaria. Estava lá, no letreiro, bem grandão: Twigo Pastelaria, Padaria e Restaurante. Pois bem. Chamo a garçonete.

- Tem pastel de quê?
- Não temos pasteis.
- Mas aqui não é uma pastelaria?
- É, sim senhora.
- E não tem pastel?

Respondeu nada. Ficou muda, me olhando com uma cara de que nada seria mais óbvio que não ter pastel numa pastelaria. Não entendi. Olhei o cardápio. Imaginei que Sandes era sanduiche, e era mesmo, mas a foto não era muito bonita. Depois descobri que, a não ser no KFC, a foto do cardápio nunca corresponde ao que é servido. E não é nada de propaganda enganosa, é que não tem nada a ver mesmo. A figura não ilustra a escrita. Pode ser uma foto de buchada de bode pra ilustrar uma caldeirada de mariscos. E ninguém liga pra isso mesmo.

Enfim. Olhei o cardápio e pedi um prego no pão. Prego é o que eles chamam de bife. Um xis-boi, com bife, tomate e cebola no pão francês, que aqui não chama de francês, só de pão. Pão de leite é pão de leite, pão de mel nem existe, mas pão francês é só pão. E pão de queijo é uma lenda que contam existir lá no Cantinho do Brasil, mas nunca consegui ver. Aliás, se a brasileira dona de lá dependesse disso pra viver no Brasil, morreria de fome. Pior comida que já provei na vida.

Dia desses, perguntei pro logista da ONG o que é uma pastelaria. Ele disse, com a maior obviedade do mundo, que é onde se fazem lanches, ô pá. Então, pra um bom brasileiro, pastelaria aqui é nossa tradicional lanchonete.

Pra geladeira, eles falam geleira. Comem omolete, e não omelete. E a feijoada deles tem nada a ver com a nossa. Vai carne de boi, e nem precisa ser com feijão preto. Tem até versão com frutos do mar – herança dos portuga.

Se você vai pegar uma carona com alguém, diz que vai pegar uma boleia. E boleia também é o nome daquelas motinhos indianas, cruza de moto com fusca, que aqui funcionam como taxi, e, na língua local, chamam-se chopela. Mas essa boleia não é de graça. Quando alguma coisa é na faixa, eles falam que é "de borla". A vantagem de andar de chopela é que é uma aventura a parte, pra compensar a metade do preço cobrado pelos taxis. Tentei fazer um viodizinho dia desses andando em uma. Posto durante a semana.

O trem aqui se chama comboio, mas é uma coisa que nunca funciona e todo mundo reclama. Pior um pouco que em São Paulo.

E o busão daqui se chama chapa. Aliás, esses chapas, meu amigo, são capazes de colocar suas orações em dia. Podem ser micro onibus (chapa 100) ou aquelas vans mesmo, estilo transporte clandestino. Mas em todo o tempo que morei em Foz do Iguaçu e de todas as vezes que cruzei a Ponte da Amizade, nunca vi uma van que chegasse aos pés desses chapas.

Pra quem conhece Foz do Iguaçu, pensa em uma van daquelas que cruzam a ponte. Daquelas típicas mesmo, que a porta não fecha e que a mola do banco fura a calça. Agora pensa nessa van depois de um tiroteio na ponte, cheio de negão suando de nervoso dentro. Pois este é o visual e o aroma dos chapas.
Se no inverno o fudum já é dos bravos, fico imaginando o que será de mim no verão.

Pensei em comprar uma bicicleta pra dar minhas voltas por aqui. Até vi uma marca local nesse final de semana, a Mozambike. Mas me disseram que era preciso ter carteira pra pilotar uma bike daquelas. Vai saber que poder ela tem nas suas 5 marchas. Mas pra andar de moto de poucas cilindradas, também ouvi dizer que não precisa de carteira. Então, até o verão, compro uma motinho. Até lá, dou minhas voltas de chapa mesmo.

sexta-feira, 27 de julho de 2012

Um pouco da vizinhança

A pedidos, depois de criar um pouco de coragem, aqui vão algumas fotos da vizinhança do trabalho. Estão meio estranhas porque tirei com o celular, caminhando ou de dentro do busão. Metade delas ao som de Roberto Carlos, Paula Fernandes, Gustavo Lima e Michel Teló, que fazem o maior sucesso com a galera de Moçamba. Hoje, inclusive, cheguei no trabalho com a criançada cantando, logo cedo "Já pegou no cabelinho? Já peguei! Já pegou na orelhinha? Já peguei!". Alias, as músicas que tocam aqui são um assunto a parte. Ficam pra outro post.



Rua logo na entrada da "comunidade" onde trabalho.

Mesma rua, um pouco mais perto do trampo.

A rádio onde trabalho fica no predinho do meio.


Uma parte do mercado Xipamanine, perto do trabalho também.


Galera vende as coisas no chão mesmo, e acha-se de tudo nesse mercado.

Eu, cidadã moçambicana


Segunda foi também o dia de pedir pra instalar internet no meu novo lar. Pra minha sorte, tem um escritório das Telecomunicações de Moçambique bem em frente ao prédio onde moro. Cheguei logo que vi pela janela que haviam aberto o escritório.


Peguei a lista de documentos necessários. Ferrou. Precisa ter um tal de NUIT, que é uma espécie de CPF moçambicano. Explico pra moça que não sou moçambicana, que estou aqui fazendo trabalho voluntário, que não faz sentido eu ter esse documento. Ela chama o chefe, um gringo com cara de árabe, usando um vestido de cetim e um chapeuzinho muçulmano, que começa o sermão.

- Sem o NUIT, não há de ser possível, ó pá. Todo cidadão precisa ter um NUIT. É uma prova de que a senhora está com os impostos em dia.
- Mas meu senhor, eu nem sou moçambicana.
- Mas está morando aqui, então, pelo tempo que ficar em Moçambique, tem que provar que paga imposto.
- Meu trabalho é voluntário, não tem nada de imposto pra se pagar.
- Mas se não tem imposto pra pagar, tem que provar também. E prova isso com o NUIT. Todo cidadão moçambicano precisa ter.

Não vai ter jeito. Pego um a carona com o office-boy da TDM mesmo e vou até o lugar onde se tira o tal de NUIT. Por sorte sai na hora e é de graça.

Chego lá, começo a preencher um formulário sem fim. Lá pelas tantas, pedem dados de um contato meu em Moçambique, uma espécie de referência. Não tenho, deixo em branco. Quando entrego, o atendente me barra.

- E o seu representante?
- Não tenho.
- Não conhece ninguém em Moçambique?
- A ponto de me representar, não.
- Mas e se a gente quiser falar com a senhora, como entra em contato?
- Tem meu telefone aí, ó. E meu endereço. E meu e-mail. Tá tudo aí.
- Mas tem que ter contato de referência. A senhora não trabalha?
- Faço trabalho voluntário.
- Então não paga imposto. Mas tem que ter representante mesmo assim.

Tá bom. Ligo pro diretor da rádio, que aceita ser minha referência. Preencho e entrego de novo.

- Agora a senhora pode se sentar ali, que preciso fazer umas coisas e depois faço seu cadastro. Esteja a vontade. Leva só um bocadinho de tempo.
- Então, enquanto isso, vou até o banco, pode ser?
- Se a senhora for, há de levar o papel consigo.
- Mas aí como você faz meu cadastro?
- Faço quando a senhora voltar.

Silêncio. Cara de paisagem.

- Ok, espero aqui então.
- Fique a vontade, só leva um bocadinho de tempo.

Algumas conversas fiadas com a colega depois, ele me chama no balcão de novo.

- Senhora, essa referência, veja cá como está o registro deste senhor [fala virando o monitor pra mim]. Está todo em branco. Não há de servir como referência.

Eu ali, muda, esperando ele me mandar procurar outra pessoa. Arrisco:

- Mas é o único contato que tenho aqui.
- Então hei de deixar sem referência mesmo. Mas avise este senhor que ele precisa completar os dados dele no registro. O NUIT dele é muito antigo, e há de ser atualizado. Por isso, vou deixar seu NUIT sem referência.

Minha Santa Maracujina! Então não era assim tão obrigatória esta bendita referência. Melhor ficar calada. Mais um “bocadinho de tempo” sentada depois, sai uma folha de papel com meu NUIT impresso.

- Se a senhora quiser, pode ir neste endereço aqui [aponta pro papel] e pede pra fazer uma carteirinha. Brasileiros gostam muito de carteirinhas, né? Pra colocar no bolso, levar junto na carteira. Aí não precisa levar esse papel.

Apenas sorrio e concordo. Nem te conto onde enfio essa carteirinha, ó pá.

Então agora sou cidadã moçambicana. Mas o contrato da internet só fica pronto pra assinar na terça. E mais cinco dias úteis pra instalar o telefone – sem combinar data ou horário antes, na surpresa mesmo. Se eu não estiver em casa, eles ligam no meu celular e eu saio correndo pra casa antes deles irem embora. Só depois disso, posso comprar o modem e colocar ADSL em casa.

E assim a África anda.

quinta-feira, 26 de julho de 2012

José, o Zeferino de Moçamba


Pra não falarem que eu só reclamo, contei a primeira parte alegre sobre a mudança pro apartamento. Faltou, óbvio, a novela mexicana dos primeiros dias. Mas, pra deixar a história menos angustiante, vou falar do José, o quebra-galho que foi dar um tapa lá no meu flat – no bom sentido, é claro.


Antes, uns detalhes. Comprei minha vasta lista de móveis e artigos pra decoração na sexta-feira passada. Pra dar aquela força, um dos logísticos lá da ONG (logístico é a versão chique pra office-boy) pegou o caminhãozinho dele, colocamos todas as cinco caixas em cima, e levamos pro apê. Chegando lá, minha coordenadora, que já havia tentando dar uma prensa no pintor sem que eu percebesse, me avisou que ainda faltavam uns detalhes. Coisa básica: não tinha cópia da chave do cadeado da entrada do prédio, os canos estavam entupidos, o pintor não havia terminado o serviço dele, nem ia terminar, e o eletricista viria no dia seguinte. Logo, teria que dormir mais uma noite no hotel.

Sem problemas. Dia seguinte, peguei um taxi e levei as coisas todas pro apartamento. Detalhe é que o motorista sequer desceu do carro. Nas palavras dele, ele era motorista, e não carregador. Pois bem, que morra com a bunda colada naquele banco ensebado.

Duas horas depois, batem na minha porta. Abro e descubro, depois de muito penar, que era o vizinho, cujo nome não entendi, com o José, o eletricista. Detalhe que o vizinho é gago. Mas não gago só de sílaba. Cada vez que ele gagejava, ele erguia os calcanhares, fazia um “Píiii-fim-iiim-desculpa” ou “Ihhh-fiimm-hom-desculpa”, e gaguejava mais ainda. E eu ali, com a porta entreaberta, segurando o look cara de paisagem, chorando de rir internamente, esperando até que saísse a frase inteira.

Nesse tempo, avisaram que o encanador não ia aparecer. Então, o José, o eletricista, avisa que pode fazer os trabalhos de encanador também. Das 11h da manhã às 8h da noite, lá ficamos eu e José no apartamento. E nada do trabalho acabar. Decidimos que ele voltaria na segunda. Ao menos havia água (fria) e lâmpada funcionando.

Ele foi e eu decidi limpar o apartamento pra começar a guardar as coisas. Dois armários limpos depois, acabou a água. E eu sem tomar banho. Fingi calma pra mim mesma e continuei, na certeza de que a água voltaria. Já passava das 11h da noite quando ouvi um barulho de água na caixa da privada. Só deu tempo de subir na banheira e tomar banho na torneira de água fria mesmo, de canequinha. Foi sair que a água acabou de novo.

(Dois detalhes: na África, ter banheira é coisa comum. Não é chique. Até porque a galera usa a banheira como uma grande bacia que só não deixa a água espalhar pelo banheiro. Não enche e fica lá sentado, pensando na vida. Fica em pé dentro mesmo, e toma banho normal. Outro detalhe é que aqui não é costume usar chuveiro elétrico. Galera usa termoacumulador e aquelas torneiras misturadoras na casa toda. Pra que é que vai ter água quente na pia da cozinha, em plena África? Pra não congelar a mão nos 20° que tá fazendo agora no inverno? Ah, vah!)

No dia seguinte, quase meio dia, e ainda sem água. Ligo pra minha coordenadora, que fala com a dona da casa. Aqui em Moçambique, a galera muito esperta tem a caixa de água no nível do chão. Então, tem que ter sempre uma bomba funcionando pra mandar a água pra cima. Se não bastasse isso, a bomba do meu apartamento e do vizinho gago é a mesma. Ele estava com um vazamento em casa, e decidiu desligar. Assim, na boa, sem avisar. Tá bom que ia levar um tempo pra sair a frase avisando, mas podia ter tentado, né?

Enquanto falava com ela no telefone, um estouro e fumaça na caixa de eletricidade. Voltou a água, foi-se a luz. Chama o seu José! Domingo é dia de descanso, mas ele compreende a necessidade e vai mesmo assim.

A água volta e começa a pingar de dentro de um dos interruptores. É claro que não ia dar certo. Como é domingo, José dá um jeitinho de isolar aqueles fios molhados, só pra não incendiar até o dia seguinte.
E eis que segunda de manhã, José avisa que vai atrasar. A esposa dele está com malária, mas isso não assusta mais a galera por aqui. Ele a deixa no hospital e vai lá socorrer a branquela, que ainda tá tomando banho frio, e de caneca.

José é uma das poucas pessoas aqui em Moçambique que parece não ter medo de trabalho. Leva tudo na esportiva, e dá um jeito pra tudo. Tem o dom da gambiarra, mas com isso eu me identifico. Até que, lá pelas tantas de segunda-feira, resolvi ajudar o Zé. Nos outros dias ele não deixou, mas depois de uns papos, ele aceita minha ajuda. Assim, acabamos mais rápido.

Depois de três dias de sufoco, tomei meu mais que merecido banho quente, cozinhei um arroz com feijão no fogão que o Zé chumbou na parede (soldou o suporte da madeira na parede mesmo, com aqueles aparelhos de soldador, já que eu tava com medo que caísse. Agora, nunca mais). E com uma boa dose de relaxante muscular, dormi feito uma pedra.

Só falta a internet em casa, que levei um baile pra pedir. Mas isso é assunto pra outro post.